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Novo Paraiso

Por Márcio Walter Machado*

Alguém que distraidamente olhasse o pequeno e colorido carro modelo Ford T, carinhosamente chamado de Fobica, em exposição na Praça José de Anchieta, no Centro Histórico de Salvador, poderia até não ligar a sua história ao maior símbolo do Carnaval baiano, o trio elétrico. Mas o fato é que sem ele tudo o que sabemos do maior Carnaval de rua do planeta poderia não existir.

Completando 70 carnavais este ano, o equipamento – minúsculo quando comparado às versões atuais – que foi criado pelos músicos Adolfo Antônio do Nascimento, Dodô, e Osmar Macêdo, na década de 1950, é o responsável por dar à folia baiana o tempero que conquistou o mundo.

No entanto, longe dos pesados e brilhantes caminhões munidos de caixas de som de última geração, responsáveis por levar as vozes de estrelas da música baiana ao mundo inteiro e fazerem tremer os corpos e os edifícios por onde passam, movimentando pelo caminho cifras milionárias, a Fobica guarda uma história mais simples.

De acordo com o músico Armandinho Macêdo, filho de Osmar, a ideia de transformar um carro antigo em um palco itinerante surgiu dias antes do Carnaval de 1951. O clube de frevos pernambucano Vassourinhas estava passando em escala de navio por Salvador e arrastou uma multidão de soteropolitanos pelas ruas do centro da cidade a pedido do governador do estado.

“Quando meu pai viu o povo enlouquecendo com o ritmo do frevo, teve a ideia de tocar com Dodô. Ele disse: ‘Dodô, bora aprender mais frevo para tocar e vamos ligar lá na Fobica, a gente toca o frevo e a percussão sai tocando pelo asfalto’. O negócio foi assim, a orquestra estimulou e eles desenvolverem a ideia. Eles só tocavam para brincar no Carnaval, ninguém ganhava nada, era só diversão mesmo, não lucraram nada até o último ano deles, que foi 1961”, conta Armandinho.

Armandinho garante: “Foi o povo que popularizou o nome trio elétrico” | Foto: Adilton Venegeroles / Ag. A TARDE

Criação

Ele também afirma que o nome “trio elétrico”, intrinsecamente ligado à imagem do caminhão de som e luz que faz a alegria de milhões de pessoas mundo afora, foi popularizado pelos foliões, não por seus inventores, que sequer haviam pensado em batizar a própria criação.

“Trio Elétrico era o nome da banda que meu pai tinha com Dodô e outro músico. Eles começaram a fazer um sucesso danado com a Fobica, ficava todo mundo na rua esperando o tal trio elétrico; e o povo, com o passar dos anos, quando viu outros veículos semelhantes como o Conjunto Atlas e 5 Irmãos chegando, começavam a gritar ‘lá vem outro trio elétrico!’. Foi o povo que popularizou o nome, que era, na verdade, o nome do conjunto de meu pai com Dodô”.

Fato que passa despercebido para muitos foliões que hoje se juntam ao coro das grandes vozes da música, o trio elétrico tocou apenas músicas instrumentais por mais de 20 anos. Só a partir de 1975, pela iniciativa de Moraes Moreira, é que as vozes dos artistas começaram a ser ouvidas.

“O trio era todo som, todo cavaquinho elétrico, Moraes, que tinha estourado com a música Jubileu de Prata, pegou o microfone que a gente só usava para puxar os foliões e começou a dar uma cantadinha aqui e outra ali. Nessa de cantar uma horinha ou outra, o negócio foi pegando e quando a gente menos pensou, Baby do Brasil e Paulinho Boca de Cantor, nos anos seguintes, começaram a cantar também”, lembra Armandinho.

Moraes Moreira inovou quando passou a cantar em 1975 | Foto: Shirley Stolze / Ag. A TARDE

Memórias da primeira cantora de trio elétrico

Seguindo a onda de cantar no trio, Baby do Brasil revela como foi sua primeira experiência. De acordo com ela, tudo partiu de uma grande inquietação quando ouvia o público responder a um solo de Pepeu Gomes na avenida.

O solo que saía do som distorcido da guitarra de Pepeu eram as notas da música Campeão dos campeões.

“Eu tocava bumbo e o prato no trio com os Novos Baianos, eu tinha um microfone para amplificar o som do meu bumbo. O trio elétrico naquela época era somente instrumental, mas sempre que Pepeu solava a parte da música que diz: ‘Quem é o campeão dos campeões?’, a praça inteira cantava, respondendo: ‘É o Bahia!’. Isso me contagiava tanto que uma hora quando chegamos à praça não aguentei e peguei aquele microfone e cantei a plenos pulmões: ‘Quem é o campeão dos campeões?’. A massa respondeu calorosa”, diz Baby.

Baby instigou o povo na praça: ‘Quem é o campeão dos campeões?’ Foto: Divulgação

Cornetas

A artista, que foi a primeira mulher a cantar em um trio elétrico, até recorda o fato curioso de ter o seu trio apelidado de O Morcegão da Madrugada e de como ele ajudou no formato dos trios atuais. “Eu e Paulinho Boca fomos para a rua para conseguir um trio, quando chegamos à garagem onde o carro estava, vimos que não havia nele as famosas cornetas que distorciam o som. Então, decidimos colocar nele o equipamento de som que usávamos nos shows. Depois de pronto, tivemos que derrubar o muro da oficina para o carro sair, pois com os equipamentos ele ficou enorme, para espanto do público”.

Parada diante da fobica, no Centro Histórico, a fonoaudióloga Anandrielle Santos, 30 anos, disse estar extasiada com a história que o pequeno Ford T adaptado representa.
“Eu fiquei imaginando como surgiu, me senti contemplando algo histórico, como a Monalisa. Não conheço os detalhes da história, mas sei de nomes importantes como Dodô e Osmar, Orlando Tapajós. Graças a eles nosso Carnaval é o melhor do mundo”, avalia.

*Sob a supervisão do jornalista Marcos Dias

Fonte: A Tarde

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