A política baiana pouco mudou de rosto nas últimas décadas. Apesar do discurso frequente de renovação, filhos, esposas, irmãos e sobrinhos de lideranças tradicionais seguem ocupando cargos estratégicos na Câmara de Salvador, na Assembleia Legislativa da Bahia e no Congresso Nacional. Em muitos casos, muda o nome na urna ou às vezes nem isso, mas o sobrenome continua o mesmo, como uma transferência hereditária do poder.
O fenômeno atravessa partidos e ideologias e mostra como a política estadual ainda opera dentro de uma ampla teia familiar, sustentada por alianças históricas, redutos eleitorais e sobrenomes já cristalizados no imaginário do eleitorado. Em vez de romper estruturas antigas, a renovação política baiana frequentemente apenas reorganiza os mesmos grupos em novas gerações.
Boa parte desses herdeiros inicia a corrida eleitoral em vantagem, com capital político acumulado, acesso facilitado a partidos, financiamento, visibilidade pública e bases herdadas ao longo de décadas. Enquanto isso, candidatos sem vínculos familiares precisam disputar espaço em um cenário onde influência e poder, muitas vezes, parecem funcionar como patrimônio de família.
Velhas novidades
Na Câmara de Vereadores de Salvador, alguns exemplos ilustram a perpetuação das capitanias hereditárias da política baiana. Alexandre Aleluia (Novo) carrega o sobrenome do pai, o ex-deputado José Carlos Aleluia. Duda Sanches (União Brasil) construiu trajetória política também sob influência do patriarca, o deputado estadual Alan Sanches, que morreu em janeiro deste ano. Cláudio Tinoco (União Brasil) é sobrinho de Eraldo Tinoco, um dos nomes históricos do carlismo baiano, ex-vice-governador e ex-ministro da Educação no governo Collor. Já Débora Santana (PSDB) é filha do ex-deputado Carlos Ubaldino.
A lista ainda inclui João Cláudio Bacelar (Podemos), filho do deputado federal Bacelar (PV); Kiki Bispo (União Brasil), filho do ex-vereador Everaldo Bispo; Marcelle Moraes (União Brasil (União Brasil), irmã do ex-deputado estadual Marcell Moraes; e Marcelo Guimarães Neto (União Brasil), filho e neto dos ex-deputados Marcelinho e Marcelo Guimarães, ambos ex-presidentes do Bahia.
Completam a lista Paulo Magalhães Júnior (União Brasil), filho do deputado federal Paulo Magalhães (PSD), sobrinho-neto de ACM e primo do ex-prefeito ACM Neto, pré-candidato do União Brasil ao governo e integrante da mais poderosa capitania hereditária da política baiana; e Randerson Leal (Podemos), filho do deputado estadual Roberto Carlos (PV).
Dinastias baianas na Alba
Na Assembleia Legislativa da Bahia (Alba), o DNA político cria também uma extensa lista. O deputado estadual Angelo Coronel Filho (Republicanos) é filho do senador Angelo Coronel. Antônio Henrique Júnior (PV) herdou o capital político do pai, o ex-prefeito de Barreiras Antônio Henrique, uma das principais lideranças do Oeste baiano. Eduardo Alencar (PSD), por sua vez, é irmão do senador Otto Alencar (PSD). Jordávio Ramos (PSDB) é filho da ex-prefeita de Juazeiro Suzana Ramos, enquanto Júnior Nascimento (União Brasil) é primo de um dos principais caciques da oposição, o deputado federal Elmar Nascimento.
Também fazem parte desse grupo Kátia Oliveira (União Brasil), esposa do ex-prefeito de Simões Filho Dinha Tolentino; Laerte do Vando (Avante), filho do ex-deputado Vando, que foi prefeito de Monte Santo; Luciano Simões Filho (União Brasil), filho do ex-deputado Luciano Simões; Ludmilla Fiscina (PSD), esposa do ex-prefeito de Alagoinhas Joaquim Neto; Manuel Rocha União Brasil), filho do deputado federal José Rocha; Marcelinho Veiga (PP), genro do ex-deputado Marcelo Nilo; Matheus Ferreira (MDB), filho do vice-governador Geraldo Júnior; Soane Galvão (Avante), esposa do ex-prefeito de Ilhéus Mário Alexandre, o Marão; e Vítor Bonfim (PSB), filho do ex-deputado João Bonfim, atual conselheiro do Tribunal de Contas do Estado (TCE).