Por James Martins/Metro1

“Me pinte aqui de Jota Morbeck”, esse bem que poderia ter sido o pedido da Rosa, a personagem de Emanuelle Araújo, para o Roque vivido por Lázaro Ramos, na cena inicial de “Ó Paí, Ó” (2007), filme de Monique Gardenberg. Mas, como todo mundo se lembra, o original é: “Me pinte aqui pra Timbalada”. E agora muita gente deve estar se perguntando: “Jota quem?”. Pois é do artista semi-anônimo para as novas gerações, mas a quem os mais velhos não se acanham de chamar “o maior cantor de trio de todos os tempos”, que vamos tratar nessa matéria. Jota Morbeck — o elo perdido do Axé.

Jucelino de Oliveira Morbeck, que detestava o próprio nome e por isso adotou o Jota, numa operação kafkiana, nasceu em Ruy Barbosa, perto de Itaberaba, em 1962, mas entrou para o mundo do Carnaval pela via de Feira de Santana, a mesma que revelou, entre outros, Luiz Caldas. Foi o primeiro a cantar em um trio elétrico na Micareta de Feira e um inovador da folia momesca soteropolitana em muitos sentidos.

A pintura da Timbalada, por exemplo, referida no início, já estava em Jota nos anos 1980. “Com uma diferença básica”, destaca o percussionista e produtor musical Jonga Cunha, “ele se pintava com tinta de parede, e as reações alérgicas eram um inferno (risos)”. Com isso, Jonga, um dos jovens diretores do bloco EVA à época, introduz uma característica fundamental do cantor. “Ele era louco. Doido de pedra! Mas, isso por que era um gênio, muito à frente de seu tempo”, afirma.

A questão é que Jota Morbeck, com todo seu talento, genialidade e loucura, ficou espremido entre a geração Dodô & Osmar e o Axé Music. Uma espécie de elo perdido mesmo entre Moraes Moreira e Bell Marques. E, embora tenha sido o introdutor de um dos hinos do nosso Carnaval, “Eva” (música da banda paulista Rádio Táxi, que por sua vez é uma versão de sucesso homônimo do italiano Umberto Tozzi), e estourado mais tarde com o “Melô do Halley”, o cantor caiu no esquecimento e, atualmente, é difícil encontrar informações a seu respeito até mesmo na internet.

Quem pôde ver e ouvir o artista em ação, no entanto, não esquece. E o impacto radiativo de Jota Morbeck inspirou muitos outros talentos. “Eu nunca vou esquecer disso na minha vida. A gente saiu da Barroquinha e subiu a Ladeira do Couro. Quando chegou na Praça Castro Alves, eu olhei, tava descendo um trio… Minha mãe era evangélica, da Igreja do Evangelho Quadrangular, imagine! Vinha aquele trio com um homem com um cabelão, cantando assim, eu falei ‘mãe, quando eu crescer eu quero ser igual a esse cara’”, conta Sarajane, uma das maiores representantes do gênero. E completa, com a resposta da mãe que, graças a Deus, não foi capaz de impedir sua carreira: “Tomei uma broca! ‘Cala a boca, você é maluca? Aquilo é o diabo!’”.

Sara, que acabou fazendo amizade com o ídolo tempos depois, quando o substituiu no Tapajós, reforça: “Eu fiquei apaixonada. Aquele negócio não saiu da minha cabeça. Era Jota Morbeck! Que cantor maravilhooooso! Eu cantei no trio por causa dele”. E a sedução do Diabo Louro enredou também os foliões, é claro. Hoje diretora de programação da TVE Bahia, Silvana Moura fala do cantor como se fosse a mesma menina de 13 anos que ficou totalmente louca por ele quando o viu pela primeira vez. Mesmo não tendo sido no trio elétrico, seu habitat natural.

“Na época, meu carnaval, infelizmente, era em clube e eu ia para o Baiano de Tênis com minhas vizinhas. Lembro que vi um show de Jota no EVA no Baiano. Ele entrou no palco como um rockstar. Uma imponência e uma indumentária psicodélica: cabelos coloridos, corpo todo pintado, calça de couro. Fiquei fã. Passei a fugir dos clubes e ir andando até o Campo Grande ou fugir de casa para ouvir aquela voz potente e carismática”, conta.

Agora sejamos um pouco cronológicos: Jota Morbeck chegou em Feira de Santana entre 1973/74 e ali cantou em barzinhos e também em bandas como Mic Five, Lordão e Gaiola Mágica. Já em Salvador, gravou no disco “Jubileu de Prata”, do trio elétrico Tapajós, em 1981, e, no ano seguinte, ingressou no bloco EVA, alçando a formação à posição de destaque do Carnaval 82. Já em 86 ele passou para os Novos Bárbaros, onde pegou carona na cauda do cometa e emplacou o “Melô do Halley”. Foi quando gravou também a música “Deboche”, de Paulinho Camafeu, irmã mais velha do “Fricote”.


Inspirada em Jota, Laurinha também aderiu à pintura corporal (Acervo Pessoal).

“Na minha opinião, foi o maior cantor de trio do mundo”, afirma o empresário Jorginho Sampaio, um dos responsáveis pela contratação de Morbeck no EVA. É o mesmo que diz a cantora Laurinha, sua companheira de vocais nos Novos Bárbaros: “A primeira vez que subimos juntos no trio eu fiquei impactada. Era uma figura muito forte! Eu acho que Jota foi o maior cantor de trio de todos os tempos”.

Entre as características marcantes de sua performance, os contemporâneos destacam o jeito de segurar o microfone com o pedestal (“À maneira de Freddie Mercury, que ele admirava”, pontua o percussionista Palito), o fato de Jota subir nas caixas de som, a cabeleira loura oxigenada, o repertório sempre bem escolhido (um dos introdutores de xotes, mas também de baladas rock no trio) e o carisma docemente roqueiro. “Você não perdia uma palavra do que ele cantava, interpretava como ninguém”, diz Silvana.



Capa e encarte do compacto do Eva, de 1983, com Jota nos vocais.

A loucura do cara, certamente um dos motivos de seu brilho, talvez o tenha impedido, porém, de manter o sucesso e seguir a carreira brilhante que todos viam à sua frente, quando o Axé Music estourou no país inteiro e no mundo. “Ele pode ser comparado aos outros gênios que não têm a menor capacidade de logística, estruturação, controle comercial de sua carreira… zero!”, analisa Jonga. E conclui: “Era um malucão. Gente muito boa, com um coração imenso, de relacionamento fácil (aí é que está!), mas de trabalho difícil, porque era irresponsável como os gênios são”.

Jota Morbeck faria 58 anos no próximo dia 16. No entanto, um dos motes dessa matéria é pontuar os 20 anos de sua morte. E a dupla lacuna deixada por ele em nossa música carnavalesca: tanto a ausência física, quanto de registros e menções. Em abril de 2000, durante as celebrações dos 500 anos do Brasil, o cantor foi dar um mergulho nas águas de Porto Seguro, sentiu-se mal e morreu afogado. Mas, um artista capaz de gerar o impacto que ele gerou em tantos e tão bons não pode ser apagado da história.

“Não é que ele seja o cantor mais importante do Axé. Não dá pra dizer isso em vista de carreiras como as de Bell, Tatau etc. Mas, nunca vi ninguém melhor”, arremata Jonga.

E por falar em loucuras daquelas que, invariavelmente, depois que passam viram graça, Jota merece uma pequena antologia das suas.

Conta Palito: “Quando a gente viajava de carro próprio, pra tocar, Jota tinha um Gol e um Opala, e a gente não passava em nenhum posto da Polícia Rodoviária, porque a documentação do carro dele só andava atrasada (risos). Então ele já sabia onde eram os postos e por onde desviar, entrava em uma fazenda, saía em outra, e já aparecia lá na frente… (mais risos)”.

Outra de Palito: “Uma vez, em Rio Verde, estado de Goiás, onde os Novos Bárbaros cresceram muito, fizemos um show para uma campanha política e Jota tinha aquela onda de roqueiro, de se jogar, mas, nesse dia ele esqueceu de colocar a joelheira. A gente cantando aquela música de Kiko Zambianchi (‘Se um dia eu pudesse ver, meu passado inteiro…’), a banda afiadíssima, ele pulou de cima das caixas de som e caiu de joelho, sem joelheira, começou a urrar no chão e a gente ‘bora, levanta Jota’, e ele urrando… (risos), tivemos que carregar”.


Diabo louro e pintado.

Elza Tripodi, viúva de Alberto Tripodi, com quem o artista manteve um relacionamento de pai e filho até o fim, tem muitas lembranças: “Jota aprontava muito e Beto sempre passava a mão pela cabeça. Novos Bárbaros era a casa dele, tanto que ele ia e voltava. Beto era um paizão pra Jota. Nós vivemos muito juntos. E ele tinha tanta confiança em Beto que ele chegava, por exemplo, em Jaguaquara, botava gasolina no posto e dizia ‘bota na conta de Tripodi’, porque sabia que tava tudo certo. Era incrível!”.

Laurinha: “A gente tinha uma relação de irmão mesmo, vivíamos na molequeira. Uma vez, em Natal (RN), com a banda Novos Bárbaros, Jota se juntou com Pedrinho Rego e eles jogaram uma bomba pelo cobogó do banheiro onde eu tava. Quase morro do coração! Resultado: a gente foi expulso do hotel e eu nunca esqueço que Beto, que, é claro, ficou danado com a gente, pra nos castigar, nos mandou pro Hotel São Francisco, nunca esqueço esse nome, que era tipo um hotel fantasma, não tinha ninguém, a comida uma miséria, tudo ruim… e mesmo assim eles continuaram perturbando, sendo que Jota era o cabeça da esculhambação (risos)”.


Capa do LP Novos Bárbaros de 1986.

Já a lembrança de Silvana nos traz de volta à música: “Uma vez ele tava no trio Novos Bárbaros e rolou um problema no som, alguns alto-falantes pifaram. Tinha uns 4 cantores. Alberto Trípodi, enlouquecido, gritou: ‘Pode ir embora todo mundo, só Jota tem gogó pra segurar uma coisa assim’. E Jota continuou com a mesma empolgação e  o mesmo povão embaixo. Ele fazia o que queria com o público. E era só música, não tinha esse negócio de conversinha, não”.

E foi com performances assim, épicas, tanto na vida elétrica quanto nos trios elétricos, que o cantor deu uma contribuição indelével para a construção do Axé e sua galeria de ídolos. A Micareta de Feira tem um palco Jota Morbeck, mas é pouco. Ídolo dos ídolos, ele merece chegar também ao conhecimento dos mais novos foliões. Assista abaixo um mini-doc sobre o “melhor cantor de trio”, com material inédito do filme “Axé – Canto do Povo de um Lugar”:

Fonte: Metro1