Um cisco nos olhos nossos, de retinas já tão fatigadas, e um colírio pros ouvidos, se me permitem o comentário sinestésico. Permitam. Não há como sair com os sentidos no mesmo lugar após ouvir do início ao fim o primeiro disco de Ana Barroso, essa artista que há muito já mostrou a que veio, mas que agora vem num álbum completo.
O nome do álbum traz incômodos e marcas da existência. Um cisco arranhando os olhos, um gotejo esvaindo as forças, um cacto que é espinho mas que é também potência de flor.
A capa do álbum traz rasuras e marcas do tempo — do tempo de antes e do tempo que virá. Do nosso tempo, que é agora. É hora das calçolas, das marinêz, das chiquinhas gonzagas, das elzas e maria-bonitas. É hora das mulé, embonitando o mundaré!
As faixas do álbum trazem poesia e sonoro encantamento. “Canto para abrir gaiolas do meu ser; só sei cantar se for pra voar”. Ana Barroso voa alto, e a gente, escutando, vai junto.
Como em todo grande evento (que este lançamento com certeza é), há as ausências sentidas. Sem dúvida, Serana é a maior dessas ausências, música que não entrou nem como bônus track.
Se lá (em Serana), a artista tinha nome, nacionalidade e endereço (Ana, latino-americana, brasileira, ainda baiana, nascida em Conquista e renascida em Jequié), aqui, em Cisco no Olho, ela preferiu se apresentar como a Nowhere Woman, mulher de lugar nenhum, por isso mesmo de todo lugar. E quem contestará as escolhas artísticas e a vontade irredutível dessa cantora-mãe-amiga-compositora-luz-mulher? Se é justamente aí que se encontra sua força, sua personalidade, seu encantamento e emoção?
Uma volta completa, uma audição atenta, para se concluir que a nowhere woman é também a “now-here-woman”, a mulher do aqui-agora, se me permitem — novamente — a pirueta idiomática. Permitam. São “querenças de encantar”, que o álbum impregnou em mim.
Ouçam Cisco no Olho. Mas ouçam muito. Ouçam até não poder mais. Ouçam enquanto houver cisco incomodando nosso olhar, enquanto houver espinho impedindo nosso pleno amor. E ouçam quando essa dor passar (“bote coragem no peito pra mudar”), e ainda depois: ouçam enquanto a terra (ainda bem, redonda) rodar, rodar, rodar…
Hendye Gracielle