As eleições de 2026 registraram, no primeiro turno, o maior índice de abstenção da série histórica para essa etapa da disputa presidencial. Com 99,87% das urnas apuradas às 22h18 deste domingo (4), **21,07% dos eleitores não compareceram às urnas**, o equivalente a aproximadamente **33,1 milhões de brasileiros**, segundo dados da Justiça Eleitoral.
O percentual supera o registrado no primeiro turno das eleições de 2022, quando 20,79% do eleitorado, ou cerca de 32,7 milhões de pessoas, deixaram de votar. Desde 2006, a taxa de abstenção apresenta uma tendência de crescimento, acumulando alta de 4,2 pontos percentuais no período.
Votos brancos e nulos também aumentam
Além do crescimento da abstenção, as eleições deste ano registraram aumento na proporção de votos brancos e nulos na disputa presidencial.
A soma chegou a **4,77% dos votos**, sendo 2,93% nulos e 1,84% brancos. Em 2022, esse percentual havia sido de 4,25%, com 2,82% de votos nulos e 1,43% de brancos.
Na eleição anterior, entretanto, houve uma redução da abstenção no segundo turno. O índice caiu para 20,57%, movimento que ocorreu pela primeira vez em uma eleição presidencial. Na ocasião, especialistas relacionaram a maior participação à disputa entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Jair Bolsonaro (PL).
Diferenças entre os estados
Os índices de ausência também variaram significativamente entre os estados brasileiros.
**Mato Grosso do Sul** apresentou a maior taxa de abstenção, com 23,87%. Na sequência aparecem **Rio de Janeiro (23,32%)**, **Minas Gerais (22,79%)** e **São Paulo (22,54%)**.
Na outra ponta, o **Ceará** registrou a menor taxa de ausência do país, com 15,52%. Depois aparecem **Roraima (17,12%)**, **Piauí (17,16%)** e **Sergipe (17,30%)**.
Perfil dos eleitores ausentes
A Justiça Eleitoral ainda não divulgou o perfil detalhado dos eleitores que deixaram de votar em 2026. Dados referentes às eleições de 2022, porém, apontam maior incidência de abstenção entre homens, pessoas com menor escolaridade e eleitores entre 21 e 29 anos ou com mais de 70 anos — faixa etária em que o voto é facultativo.
A escolaridade também apresentou relação significativa com o comparecimento às urnas. Em 2022, entre os eleitores analfabetos, o índice de abstenção chegou a 52% no primeiro turno e 49,3% no segundo. Entre aqueles com ensino superior completo, a taxa foi de 12,4%.
Menor mobilização durante a campanha
As eleições de 2026 também foram marcadas por uma menor mobilização durante a campanha. Pela primeira vez em décadas, os principais candidatos à Presidência não participaram de debates entre si, enquanto pesquisas realizadas durante o período eleitoral apontaram níveis reduzidos de interesse pelo pleito.
Cientistas políticos ressaltam, no entanto, que ainda não existem pesquisas suficientes para apontar uma causa única para o aumento da abstenção.
Entre as hipóteses discutidas estão o desgaste provocado pelas disputas presidenciais anteriores, dificuldades de deslocamento até os locais de votação — especialmente em áreas da Amazônia e municípios menores — e possíveis desatualizações no cadastro eleitoral.
Custo da ausência é considerado baixo
Outro fator apontado nas análises é o baixo custo financeiro para quem deixa de votar.
No Brasil, o voto é obrigatório para brasileiros alfabetizados entre 18 e 70 anos. O eleitor que não comparece pode apresentar justificativa por meio do aplicativo e-Título ou pelos canais disponibilizados pela Justiça Eleitoral.
Quando a ausência não é justificada dentro do prazo, é aplicada multa de **R$ 3,51 por turno**. O título eleitoral pode ser cancelado caso o eleitor deixe de votar, justificar ou regularizar a situação em três eleições consecutivas.
Em 2025, aproximadamente 5 milhões de eleitores tiveram os títulos cancelados por não terem votado, apresentado justificativa ou pago as multas referentes aos três últimos pleitos.
Abstenção cresce enquanto brancos e nulos perdem espaço
Apesar do aumento registrado neste ano, a longo prazo os votos brancos e nulos apresentam uma trajetória de queda.
Em 2018, eles representaram conjuntamente 8,79% dos votos na eleição presidencial. Em 2002, chegaram a 10,39%.
Uma das interpretações apresentadas por especialistas é de que parte do eleitorado que está descontente ou pouco interessado na disputa pode estar optando por não comparecer às urnas, em vez de votar em branco ou anular o voto.
O fenômeno reforça o peso crescente da abstenção no resultado das eleições brasileiras e coloca a participação eleitoral entre os principais pontos de atenção para os próximos pleitos.