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Empresária de sucesso, Flora Gil diz que é difícil não fazer o Expresso no Carnaval de Salvador, mas que a pandemia impede de realizar a festa nos moldes tradicionais. Para ela, o setor será obrigado a “se adaptar e vai ter que se reinventar”. Esposa do cantor e ex-ministro da Cultura, Gilberto Gil, Flora diz que o “governo federal não gosta de cultura e não quer apoiar”. E emenda: “A Lei Rouanet não é mamata”. Ela diz ainda que esse “é um governo amargo. Eles não têm sensibilidade para a cultura”. E finaliza, afirmando que as “pessoas não se tornaram melhores com a pandemia“, como era previsto no início da crise de saúde pública. Confira:

Flora, você é uma empresária de sucesso que deu vida ao Expresso 2222, um dos pontos mais disputados do carnaval de Salvador. Como vê a não realização da festa?

Obrigada a você pelo convite e ao Jornal A TARDE. Quanto ao Expresso, pelo segundo ano sem carnaval, claro que tem a tristeza de não estar fazendo a festa, e tem todas as consequências de não fazê-la. Mas ao mesmo tempo me dá um alívio de estar cooperando para que a gente consiga sair dessa história da COVID-19 com mais rapidez. No ano passado, quando eu anunciei que não iria fazer o carnaval, algumas pessoas ficaram falando também “poxa, tem certeza?”. Mas naquela época eu falava “gente, a pandemia não acabou”, e hoje eu repito, a pandemia ainda não acabou. E apesar da vacina, você ainda tem notícia de morte, notícia de pessoas que não querem se vacinar e toda essa onda que a gente vê nos jornais, na TV. Para mim é difícil não fazer o carnaval, mas eu acho que seria mais difícil fazer o carnaval com medo de ser um multiplicador de doença, e alguém falar “fulano está grave, está doente, ou um convidado meu, minha família, um funcionário ou qualquer pessoa, pegou COVID-19 lá no Expresso, está grave”. Eu não quero isso. Então se tiver que não fazer no ano que vem, eu também não faço. Só vou fazer quando eu tiver certeza que pelo menos a maioria de convidados que estejam ali todos estejam vacinados e que não venha uma nova cepa, a gente não sabe. Hoje de manhã eu acordei e tinha uma guerra na televisão. Então você nunca sabe. A gente vive com um acúmulo de surpresas ruins ultimamente.

O fato de não acontecer a festa pelo segundo ano consecutivo abre sempre margem para que aconteçam especulações sobre o futuro do carnaval de Salvador, sobre o desenho da festa. É chegada a hora de pensar em novos formatos para a festa, Flora?

Olha, eu acho que o brasileiro é bem criativo. A gente consegue se adaptar facilmente. O homem é muito adaptado. Eu fico pensando às vezes, será que a gente vai ter aquele carnaval do baiano? Todo mundo ali atrás do trio, as pessoas todas amontoadas, olho os vídeos, e tudo… Será que a gente vai ter? Às vezes eu vejo, eu falo com a dra. Margareth Dalcolmo, quando eu tive COVID-19 ela foi nossa médica, foi ali que eu a conheci melhor. E ela ficava também nessa interrogação. Será que não vêm novas cepas? Será que a gente vai ter que tomar cuidado para o resto da vida? É uma interrogação. Eu acho que pela primeira vez na vida a gente passou por isso, essa geração. Fora a gripe espanhola, guerras, enfim. Eu não sei responder se eu acho… Eu espero que sim, eu espero eu volte. Mas talvez a minha intenção de viajar de avião sempre vai ser com máscara. Eu não me vejo mais pegar um avião sem máscara. E eu achava esquisito fazer viagem internacional com aquilo… Então, ilustrando, eu não me vejo andando de avião sem máscara. Mesmo que todo mundo tire, acho que vou ficar com máscara.

O setor do entretenimento e o setor cultural foram os primeiros a ser afetados pela pandemia e estão sendo os últimos a retornar. Como você observa esse momento atual e o que pensar para esses setores partir de agora?

Você bem falou, acho que foi o setor que mais sofreu. O cinema sofreu, os palcos dos teatros, o carnaval, as casas de espetáculos. Você olha para trás, cinco, seis anos atrás, dez, quinze. O teatro Castro Alves com a pauta lotada, Concha Acústica lotada. Todos… Porto Alegre, Belo Horizonte, Palácio das Artes, Teatro Guaíra. E quando você vê, isso tudo parou, estacionou, ficou fechado. E aí é uma sucessão de problemas, porque desde o porteiro até a moça que limpava o camarim, passando pelo empresário do artista, pelo próprio artista que vai lá se apresentar e tem o cachê, nesse caso o maior cachê é do artista, e a distribuição toda vem dali. Os músicos, os técnicos, a camareira, o faxineiro, o pessoal de circo, de balé… Foi uma avalanche de prejuízo em uma escala muito grande. E eu vejo que agora a gente está retomando de uma maneira bem civilizada. No começo não, no começo todo mundo dava um jeitinho. Você via umas festas em vários lugares, festa em Trancoso, 500, 700 pessoas… A Preta mesma pegou COVID-19 em uma dessas festas, logo no comecinho ela foi para um casamento, e no casamento tinha uma pessoa com COVID-19 que havia chegado dos Estados Unidos. Então a gente assistiu a COVID-19 no começo na nossa família. Talvez seja também um motivo de eu ser mais… Eu fico com mais medo. Às vezes eu me pergunto se estou exagerando, mas não estou não. Gil com 80 anos também teve problemas de rins há quatro anos, e a COVID-19 ataca também os rins… Então eu quero preservar todo mundo que está perto de mim. Mas eu acho que agora, como a gente é criativo, vai dar para ir voltando aos poucos, eu acho que sim. Outro dia o Russo (Passapusso) veio aqui e ele estava eufórico, ele e o Beto do Baiana, porque estavam indo fazer um show. Dois anos sem tocar. Aí na volta ele falou “você não tem noção de como foi, foi a maior alegria”. O dentista voltou para o consultório, o médico não saiu dali, o médico ficou direto. Mas para uma outra área que não essa nossa, foi muito complicado, muito difícil. E pessoas realmente sem pagar aluguel, pessoas sem dinheiro, porque viviam daquilo. O oficio do contrarregra era contrarregra. Ele pagava aluguel com aquele número de shows por mês. O técnico de som é técnico de som, de repente não tem som, não tem mais nada. Todo mundo ficou com uma reserva. E falando do carnaval, uma coisa para se pensar é sobre os cordeiros. Falavam assim “meu Deus, os cordeiros vão morrer de fome”. Eu também penso que tem que olhar direito e pagar melhor os cordeiros, por exemplo. Porque se eles estivessem ganhando um pouquinho mais, talvez eles tivessem uma economia, não tivessem morrendo de fome. Então é bom também quando dá essa parada para a gente pensar: caramba, como é que se sustenta quando vem uma guerra, quando vem uma pandemia, como é que se faz? Então eu acho que deveria ter uma distribuição melhor… Tentamos fazer isso no Expresso. Acho que a gente como empresário e como trabalhar do entretenimento a gente pode tentar equilibrar um pouco mais, sabe? Ganhar um pouquinho menos e pagar um pouquinho mais. Eu acho que é uma distribuição honesta, mais lúcida. A gente tem que ter uma lucidez com as pessoas que trabalham com a gente. Então eu acho que a gente tem que ser um pouco mais generoso para nessas horas ter o fôlego.

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