O ano de 1964 seria marcado para sempre na história brasileira. A coincidência do dia 1º de abril ser o marco da idade das trevas da sociedade pindoramica veio por um acaso, mas a simbologia do dia com o fato histórico pode estar mais ligado do que refletimos. O primeiro momento em que vemos na história ocidental o nome “Idade das trevas” vem do período em que os dórios invadiram a península balcânica e transformaram uma sociedade em ascensão em uma dominada pelo medo e a violência. Assim, consequenciou o período da diáspora grega, onde com medo os helenos passaram a utilizar seu conhecimento marítimo e passaram por um processo de êxodo populacional que marcaria a queda de seu desenvolvimento no território e o espalhamento da cultura grega nas sociedades do mediterrâneo. Este é o momento em que os historiadores utilizam as odisseias de Homero para entender melhor o que se passava naquele contexto marcado por um declínio e submissão.
Para a arqueologia e a historiologia, os contos populares e as ficções são de extrema importância para entender o pensamento social daquele povo ou cultura estudada. Como no exemplo que expliquei, foi fundamental os contos homerísticos no estudo da formação da sociedade daquela época. No cenário político e social que se encaminhava o Brasil no ano de 1964 e após, não seria diferente utilizar a cultura para entender o que acontecia na realidade escondida pela elite que usurpou até os direitos mais básicos de uma República Democrática. E dentre vários Homeros que o Brasil foi capaz de produzir na ditadura, Glauber Rocha foi o que fez mais questão de mostrar para seu povo e o mundo o que realmente acontecia na “República” das Bananas.
Glauber Rocha nasceu no dia 14 de marçode 1939 em uma família protestante de Vitória da Conquista — BA e foi alfabetizado em seus primeiros anos de vida pela mãe Lúcia Rocha. Ingressou no colégio Padre Palmeira e no ano de 1947 mudou-se para a capital baiana, Salvador. Se formou no Colégio 2 de Julho e depois ingressou na Faculdade de Direito da Bahia — hoje a UFBA. Em sua vida escolar já começava seus estudos de teatro e escrevia e atuava e na faculdade, entrou para um grupo de cineastas amadores.


Sua carreira no cinema começou no curta Um Dia Na Rampa, quando colaborou na produção de Luiz Paulino dos Santos, além de produzir outros como diretor principal como O Pátio (1959) e Cruz na Praça (1960). Glauber tomou uma decisão ousada quando largou o curso de direito e decidiu investir na carreira de cineasta, mas foi nessa decisão que o diretor já mostrava o que seus filmes mais tinham de característico: o risco que o diretor sempre levava em suas histórias e posições.
Glauber Rocha sempre demonstrou em suas entrevistas que queria um novo cinema no Brasil. Uma reformulação pela cultura, um cinema que mostrasse a realidade crua e que fosse anti-imperialista. Assim ele criaria um movimento que seria um marco cultural como o da Semana de Arte de 22, uma arte que não só fosse brasileira, mas uma arte que fosse cruelmente brasileira. O Cinema Novo.
“Mas esse problema de colonização cultural é um problema complexo do Brasil porque inclusive a vanguarda da intelectualidade brasileira, é colonizada pela ideologia norte-americana. De forma que o problema de cinema é um problema trágico porque os empresários não compreendem o problema industrial, os intelectuais são colonizados, o governo encara o cinema com desconfiança.”
O protesto do cineasta no Festival de Veneza de 1980 mostra muito bem isso. Após perder para Louis Malle, o diretor foi nas câmeras em “bom” italiano dizer algumas verdades sobre a nova fase do cinema que andava de lado a lado com a ascensão do neoliberalismo:
“Eles que são pobres e decadentes, reacionários!(…)Porque meu filme é muito superior a isso! Meu filme fala do futuro, do novo mundo. Com uma ideologia e uma linguagem novas. Foi demais para esses críticos decadentes que gostam de Louis Malle, de Hitchcock e de toda esta merda que está aí!”
O protesto do cineasta no Festival de Veneza de 1980 mostra muito bem isso. Após perder para Louis Malle, o diretor foi nas câmeras em “bom” italiano dizer algumas verdades sobre a nova fase do cinema que andava de lado a lado com a ascensão do neoliberalismo:
“Eles que são pobres e decadentes, reacionários!(…)Porque meu filme é muito superior a isso! Meu filme fala do futuro, do novo mundo. Com uma ideologia e uma linguagem novas. Foi demais para esses críticos decadentes que gostam de Louis Malle, de Hitchcock e de toda esta merda que está aí!”
Seu primeiro longa foi Barravento (1962), premiado no Festival de Karlovy Vary, Tchecoslováquia. Seu primeiro filme de longa metragem seria o que Rocha mais trabalharia nos seus filmes mais premiados e reconhecidos da carreira, no caso, a vida das comunidades esquecidas da Bahia e a tentativa de quebrar as correntes da submissão das classes mais prejudicadas brasileiras. O filme foi um choque para os críticos brasileiros e a elite. Mas não seria nem perto do barulho do próximo filme do baiano.
Três meses após o golpe militar brasileiro, Glauber Rocha lançaria o que muitos consideram sua obra prima. Deus e o Diabo na Terra do Sol é a mistura de vários elementos que compõem a cultura nordestina. Mas de jeito nenhum é romantizada ou estereotipada, o que foi o caso de várias representações dessa cultura principalmente por uma classe intelectual sudestina e elitista.
Um dos maiores exemplos de como o sertanejo nordestino era visto como um ser diferente aos olhos do Estado está na obra Os Sertões (1902) de Euclides da Cunha. O carioca vindo de uma base militar e extremamente aristocrático em sua escrita, descreve os acontecimentos da quarta invasão do exército na Guerra de Canudos (1896–1897) de maneira especificamente científica. Apesar de em sua época o Brasil estar sofrendo uma influência do positivismo e eugenismo — e Euclides ser um homem de sua época — o jeito em que o ex-militar descreve os jagunços, é quase como se o mesmo estivesse descrevendo um rato de laboratório:
“Convindo em que o meio não forma as raças, no nosso caso especial variou demais nos diversos pontos do território as dosagens de três elementos essenciais. Preparou o advento de sub-raças diferentes pela própria diversidade das condições de adaptação. Além disso (é hoje fato inegável) as condições exteriores atuam gravemente sobre as próprias sociedades constituídas, que se deslocam em migrações seculares aparelhadas embora pelos recursos de uma cultura superior. Se isto se verifica nas raças de todo definidas abordando outros climas, protegidas pelo ambiente de uma civilização, que é como o plasma sangüíneo desses grandes organismos coletivos, que não diremos da nossa situação muito diversa ? Neste caso — é evidente — a justaposição dos caracteres coincide com íntima transfusão de tendências e a longa fase de transformação correspondente erige-se como período de fraqueza, nas capacidades das raças que se cruzam, alterando o valor relativo da influência do meio. Este como que estampa, então, melhor, no corpo em fusão, os seus traços característicos. Sem nos arriscarmos demais a paralelo ousado, podemos dizer que, para essas reações biológicas complexas, ele tem agentes mais enérgicos que para as reações químicas da matéria.”
E apesar de fazer elogios aos moradores de Canudos como homens fortes e considerar isso de todos os sertanejos do nordeste, estava bem longe do que Euclides considerava como raça pura — a branca neste caso (lembrando que Euclides da Cunha foi formado pela escola politécnica militar, ou seja, suas influências são positivistas que no caso, tentava descrever uma sociedade avançada aos padrões europeus).
Com o tempo, a cultura do sertão foi jogada como secundária para uma recém república que começou um breve processo de urbanização. Foi aí que cada vez mais o sertanejo foi mostrado como um estereótipo de várias visões preconceituosas e negativas, como o exemplo do personagem Jeca Tatu de Monteiro Lobato.
O processo que estava ocorrendo de subjugação dos que viviam à margem do Estado nunca foi um problema para uma intelectualidade que sempre surgiu de famílias influentes do Brasil. Mas o Cinema Novo de Glauber Rocha vinha justamente para quebrar a visão que a elite dava sobre o Brasil, e sim mostrar a visão do povo.
Deus e o Diabo na Terra do Sol é bastante teatral e místico, mas a experiência do teatro de Rocha é o que deixa as coisas mais interessantes e visualmente mais complexas. O uso da religião católica é presente explicitamente e implicitamente. No caso explícito, as figuras religiosas estão sempre presentes para demonstrar a forte presença da cultura católica do sertão nordestino — e principalmente de forma crítica — e no implícito a dialética do purgatório.
O purgatório seria a síntese do céu e o inferno, a virtude e o pecado. As almas que precisam passar ainda por um processo de purificação e que, entretanto, não irão para o inferno. Porém, o purgatório é um lugar de sofrimento em que a alma precisa superar para chegar no paraíso.
A igreja católica não descreve o purgatório como um Estado de Espírito. Todavia, o clero da Idade Média e a Divina Comédia de Dante popularizaram o purgatório como um espaço, apesar de metafísico, um lugar. A perspectiva que o diretor escolheu foi a mais comum, a segunda, afinal o que importa para o filme não é a explicação da igreja pela teologia e sim pelo povo.
E o sertão, nesse caso nordestino, é realmente mostrado como um purgatório real. Onde apesar do sofrimento parecer um inferno, o estado em que os protagonistas Manuel e Rosa estão vivendo é de um abandono e de várias tentativas de uma salvação.
A salvação que os protagonistas encontram se mostram dialéticas também. O messianismo pregado por Sebastião e o Cangaço de Corisco.
Após matar o coronel da região, Manuel e Rosa fogem da roça de onde moravam para tentar achar algum destino para suas vidas. O messiânico Sebastião entra em cena mostrando para um povo carente que ele iria levá-los para uma terra sem seca e sofrimento. Manuel já perdeu sua face de herói da história quando se une ao movimento, liderando a parte da força de uma seita que o líder era um religioso que ocultava sua face perversa. A dialética entra quando percebemos que Sebastião apesar de ser um homem que lidera um destino para a vida daqueles sofridos jagunços, é na verdade um louco que em algumas cenas realiza sacrifícios humanos como o de um bebê e de uma mulher, nesse caso Rosa. A mulher então consegue matar Sebastião e fugir com Manuel para frente, realmente vivendo apenas o cenário da secura e solidão daquele sertão esquecido pelo Estado.
Novamente eles encontram um possível refúgio, dessa vez seguem um lado que seria a antítese do messianismo, o cangaço. No bando de Corisco, Manuel ganha o apelido de Satanás e aceita a promessa imediatista dos cangaceiros de acabar com os ricos para que um dia os pobres não passem fome. Porém, a face perversa dialética aparece novamente, o cangaceiro Corisco se mostra um homem que também é perverso e cruel. E em um confronto com o pistoleiro Antonio das Mortes, todo o cangaço, menos Manuel e Rosa, é morto e resulta na fuga novamente dos protagonistas.

O final é uma metáfora para a salvação da dialética do pecado e da virtude. Na última cena, Manuel e Rosa saem correndo sem direção e a opacidade do take passa a perder para o surgimento de um mar cheio. Isso mostra que o sofrimento dos dois resultou na salvação, no caso, a fuga dos sertanejos do eterno purgatório que é o sertão nordestino.
A fuga não é só uma alegoria que Glauber usou para descrever a salvação dos personagens, como também a realidade em que vários nordestinos viveram para sobreviver ou arriscar uma vida melhor de um lugar que foi completamente abandonado pelo Estado brasileiro. Quando vi o filme e os cenários que Glauber utilizou no longa, me remeteu muito a situação a história de vida que pude ter pessoas que experienciaram de perto a vida do purgatório do sertão, como Joelma.
Joelma Jesus da Silva nasceu no dia 31 de agosto de 1977 em Poções — BA. Veio de uma família baiana, a mãe Maximina Rosa de Jesus cresceu com origens indígenas e viveu em uma cultura onde a servidão vinda pelo patriarcalismo formou seus costumes e sua vida. O pai Durval Manoel da Silva veio de uma família com uma certa estabilidade econômica até a morte de seu pai, Israel, por causas naturais — as más línguas dizem que descobriram voodoo em seu terreno, muitos dizem que uma briga por terras causou tal ato — e assim viveu na pobreza até sua vida adulta. Os dois se casaram jovens e saíram do sertão para tentar a vida na cidade próxima, Vitória da Conquista, a mesma cidade de Glauber.
Todos os seus 8 filhos estudaram por um tempo no Padre Palmeira, alguns não conseguiram completar o ensino básico devido à falta de oportunidades e uma realidade mais propícia ao trabalho braçal do que acadêmico. Todavia, a vida em uma cidade não tão desenvolvida e as constantes idas para a roça fizeram com que Joelma também sentisse a necessidade para a fuga como vários nordestinos fizeram, e o destino, como foi o da maioria, foi a capital paulista.
O purgatório, diferente do filme de Glauber Rocha, foi com certeza a vida paulistana. A jovem tinha 18 anos quando saiu do berço baiano para a realidade cruel pós neoliberal que São Paulo proporcionava e ainda proporciona. O trabalho submisso foi uma constante na vida da mulher que apenas buscava por uma estabilidade e o sonho de dar melhores condições para uma família que apenas buscava um lar fixo na terra de todos os santos.
Só conseguiu sair da relação dialética, muitas vezes escondida na cordialidade, com um esforço enorme. Não é um discurso meritocrático, muito pelo contrário. Mais estabilizada, conheceu um irlandês maluco que se apaixonou pela bravura e a beleza da nordestina e juntos conseguiram estabelecer uma família em terras paulistas.
A cultura nordestina é presente em São Paulo mais do que a cidade quer reconhecer. O polo do capitalismo foi construído pelas mãos de retirantes que saíram de suas terras em busca de melhores oportunidades. O que entristece esse fato é que a diferença está em um mesmo país e construída por uma herança histórica de um mau planejamento e a concentração no poder de poucos de uma região. Não é à toa que a presença desses nordestinos que vieram para São Paulo se vê mais presente nas favelas da capital.
A arma que a elite do sudeste utiliza para ainda manter a relação dialética do mesmo povo é tanto as oportunidades quanto também a xenofobia. A mesma que cresceu tentando imitar os povos europeus, não consegue enxergar beleza na cultura mais original e feita pelo seu próprio povo. Mas talvez assim foi bom, pois a aristocracia brasileira não tem nenhuma participação no que foi o mais belo movimento popular, a cultura que o povo de uma região abandonada desenvolveu para se pertencerem.
Glauber Rocha tentou expor essa cultura para que ela fosse uma das conjunturas populares na cultura de massa e acadêmica. Porém, a ditadura não o apoiou, muito pelo contrário! Glauber quase foi morto em seu exílio em Portugal a mando das mãos de ferro do exército de Médici. Era melhor para os militares importar cultura dos Estados Unidos do que fortalecer a da população, vai que isso mostra a realidade que eles não queriam que a população soubesse nos “anos dourados” da ditadura.
Apesar dos apesares, Glauber conseguiu realizar feitos históricos como cineasta e se tornou o diretor mais importante da história brasileira. Rocha não conseguiu fazer com que os Oliveiras e os Silvas do Brasil fossem a cara da cultura que os mesmos ajudaram a construir, mas a bravura de fazer isso em meio a repressão e ao preconceito de não ser da elite e nem do eixo já torna o diretor histórico. Não é à toa que Scorsese admite se inspirar nele.
Não sou nordestino, porém nasci de uma família que cresceu na parte em que o coração da região pulsa, em seu interior seco e que chora a alma dos artistas e trabalhadores mais importantes desse país. Não esqueço a frase do meu tio “O nordeste é tão lindo que até o sofrimento do nordestino vira música”. Uma família conterrânea da cidade do diretor Glauber Rocha me fez ter outro olhar de suas obras, principalmente entender as motivações que tinha o cineasta em transformar esse país e mostrar a realidade crua de milhões que são somente vistos como números, ou nem isso.
Digo isso com propriedade, nasci de uma mãe que precisou com muita força chegar onde chegou. Hoje formada, não teve pessoa no mundo que mais me ensinou do que ela. Se um dia consigo escrever este texto, veio de muita garra de uma mulher nordestina. Não há pessoa como você, Sr.ᵃ Joelma.
Com amor
De Gustavo para Joelma