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Aos 50 anos, atleta conquistense enfrentou quatro provas em cidades alemãs. Sozinha, com recursos limitados e movida pela fé, voltou ao Brasil com medalhas e uma história emocionante

Resultados em competições na Alemanha
📍 Berlim
• 5 km: 19 minutos.
1° brasileira
1° na categoria
• 42 km (maratona): 3 horas e 30 minutos.
129° lugar na colocação geral

📍 Munique
• 10 km: 40 minutos e 55 segundos.
4° colocada na categoria

📍 Magdeburg
• 4,2 km: 16 minutos e 40 segundos.
1º lugar na classificação da prova.

Uma brasileira em meio a milhares de atletas, uma música de Ivete Sangalo ecoando na largada de uma das maratonas mais importantes do mundo e uma mulher de 50 anos descobrindo, a cada quilômetro, que era capaz de ir muito além do que imaginava.

A jornada de Suzy Ruas, atleta de Vitória da Conquista, na Alemanha, foi marcada por conquistas esportivas, encontros inesperados e dificuldades que exigiram muito mais do que preparo físico.
Entre o fim de setembro e outubro de 2026, ela encarou quatro desafios em três cidades alemãs: Berlim, Magdeburg e Munique. Foram provas de diferentes distâncias, pódios, uma experiência inesquecível diante de uma multidão internacional e uma sucessão de obstáculos que, em diversos momentos, pareciam maiores do que suas próprias forças. Mas Suzy tinha um propósito: queria representar o Brasil, levar o nome de sua cidade para o mundo e voltar para casa com a certeza de que havia cumprido aquilo que foi buscar. E conseguiu.

“Eu sou uma mulher muito forte. Só eu e Deus sabemos de tudo o que passei para chegar até lá e conquistar todos esses resultados”, resume a atleta, emocionada ao recordar a experiência.

O primeiro passo de um sonho extraordinário


A aventura começou em 26 de setembro, com uma prova de cinco quilômetros que antecedeu a maratona de Berlim. O que poderia ser apenas um aquecimento para o grande desafio do dia seguinte acabou se transformando na primeira grande alegria da viagem. Suzy concedeu uma entrevista a um canal de televisão alemão ainda na largada e cruzou a linha de chegada como a primeira brasileira, além de conquistar o primeiro lugar em sua categoria, com um resultado que a deixou ainda mais confiante. A vitória foi um sinal de que a viagem já estava valendo a pena.

Entretanto, um dos maiores desafios da viagem foi a adaptação ao fuso horário. Mesmo dormindo cedo, Suzy acordava sem disposição e sentia que seu corpo não reagia como de costume. Sem entender o que estava acontecendo, precisou lidar com esse desgaste físico enquanto se preparava para as competições. A dificuldade tornou a jornada ainda mais exigente, pois, além das provas, ela precisava enfrentar o cansaço e as mudanças na rotina.

Mas o maior desafio ainda estava por vir. No dia 27 de setembro, Suzy alinhou-se entre os participantes da BMW BERLIN-MARATHON 2026, uma das provas de rua mais prestigiadas do planeta. A organização esperava receber mais de 56 mil atletas, de aproximadamente 160 países, em um evento que transforma a capital alemã em um grande encontro internacional de esporte e celebração.

Para a conquistense, estar ali já representava a realização de um sonho. Ela estava emocionada, consciente da dimensão daquele momento e pronta para percorrer os 42 quilômetros da maratona. Foi então que aconteceu uma das cenas mais surpreendentes de sua viagem.

“Poeira”, de Ivete Sangalo, na largada de Berlim

Em meio à multidão internacional, Suzy foi surpreendida ao ouvir “Poeira”, sucesso de Ivete Sangalo, sendo cantada naquele ambiente tão distante do Brasil. Para uma fã da cantora, a música teve um significado especial. De repente, a Bahia, sua identidade brasileira e sua paixão pela artista pareciam estar presentes na largada, em plena Alemanha.

A emoção foi ainda maior, quando o locutor a convidou para subir ao palco e agitar a plateia ao som daquele hino do carnaval baiano. Por alguns instantes, ela sentiu que já havia recebido um presente, antes mesmo de começar a correr. “Ali eu não precisava mais correr, porque tinha acontecido algo extraordinário de Deus! Eu falava: ‘Meu Deus, eu estou sonhando!’”, relembra.

A emoção, porém, não a impediu de cumprir a missão esportiva. Suzy completou a maratona em 3 horas e 30 minutos, um resultado incrível, especialmente diante de tudo o que viveu antes e durante a prova. “Foi a melhor maratona da minha vida”, afirma. A partir daquele dia, nasceu também um novo desejo: fazer com que o vídeo daquele momento chegasse até Ivete Sangalo. Suzy, que já era fã da cantora, passou a sonhar com a possibilidade de ter a artista compartilhando o registro e, quem sabe, de conhecê-la pessoalmente. É mais um sonho para a lista de conquistas que essa viagem ainda pode produzir.

De Berlim, Suzy seguiu para Magdeburg, a cerca de 180 quilômetros da capital alemã, onde enfrentaria uma prova de aproximadamente 4,2 quilômetros. A distância era menor, mas o desafio tinha outra dimensão: ela já havia corrido os cinco quilômetros preparatórios e os 42 quilômetros da maratona. Estava cansada, sem o treinamento específico de velocidade que uma prova curta exige e, ainda assim, decidiu seguir em frente. Dessa vez, precisaria enfrentar também a barreira do idioma e a dificuldade de se locomover sozinha em uma cidade desconhecida. Os demais brasileiros que estavam com ela já haviam ido embora. Sem companhia, Suzy precisou encontrar o caminho, lidar com as informações em alemão e tentar entender como funcionava a organização da corrida. Em meio à movimentação de milhares de pessoas, ela se confundiu com os locais de largada.

Ela conta que havia diferentes horários e áreas de concentração, e os números de peito eram semelhantes. Sem conseguir se comunicar, sem alguém a quem pedir orientação e com dificuldade para utilizar o telefone como tradutor, viveu momentos de aflição. Ela chegou a pensar que as crianças participariam separadamente da prova e só descobriu, ao final, que todos corriam juntos. Mesmo diante da insegurança e do cansaço, não desistiu. E foi justamente ali que veio outra surpresa: Suzy conquistou o primeiro lugar em sua categoria.

“Para mim, estava muito bom, mas, quando fui chamada ao pódio e vi a idade da segunda e da terceira colocadas, fiquei muito assustada. Eu, com 50 anos e elas com 14 e 15. Fiquei muito feliz em subir no lugar mais alto”, recorda.

A conquista em Magdeburg teve um significado especial. Não foi apenas uma vitória sobre outras competidoras, mas também sobre o medo, o cansaço, a solidão e a sensação de estar em um lugar onde tudo parecia difícil de compreender. Um desafio que também exigiu coragem fora das pistas.

Entre uma prova e outra, a realidade financeira começou a pesar. Suzy não imaginava que o custo de vida na Europa seria tão alto e percebeu que precisava de ajuda para continuar a viagem até Munique, onde faria sua última corrida. A alimentação era uma das maiores dificuldades. Para economizar, levou de casa um pequeno fogareiro, onde preparava a própria comida. Durante boa parte dos 21 dias em que permaneceu na Alemanha, alimentou-se de farofa de ovo, granola, macarrão e sardinha. Ela conta que chegou a ficar exausta de repetir as mesmas refeições. Comer fora era praticamente inviável: um prato poderia custar entre 30 e 100 euros. “Minha salvação foi ter levado o fogão. Eu não almoçava fora. Ficava comendo minha farofa de ovo e macarrão com sardinha. Chegou uma hora em que eu não aguentava mais”, relata.

Quando percebeu que o dinheiro estava acabando, pediu ajuda à família, aos amigos e às pessoas que acreditavam em seu sonho. A irmã organizou rifas para arrecadar recursos, enquanto outras pessoas contribuíram financeiramente para que ela pudesse seguir viagem. Suzy também se emocionou ao lembrar das pessoas que a ajudaram mesmo sem conhecê-la profundamente. Houve quem contribuísse com dinheiro, quem oferecesse apoio e quem surgisse justamente quando ela mais precisava. Segundo ela, um homem na Alemanha contribuiu com R$ 1.300,00 e uma mulher a ajudou com R$ 600,00. Foram gestos decisivos para que a atleta conseguisse permanecer no país e concluir o desafio. “Eu não sei como consegui ficar 21 dias na Alemanha. Tinha gente que dizia que eu não ia conseguir. Mas um dava um dinheiro, outro ajudava, e eu fui me virando”, conta. Ela faz questão de reconhecer que não teria chegado tão longe sem essa rede de solidariedade, formada por familiares, amigos, apoiadores e pessoas que acreditaram em sua capacidade de realizar o que parecia impossível.

Munique: última corrida e a sensação de dever cumprido

Depois de Magdeburg, ainda faltava o último capítulo da jornada: os 10 quilômetros da Maratona de Munique, disputados em 11 de outubro. Suzy chegou à cidade exausta, mas determinada a concluir o desafio. Foram mais de 40 mil inscrições em suas diferentes provas, com participantes de 130 países. No balanço oficial, aproximadamente 37.800 atletas participaram das competições, em um evento que também reuniu cerca de 150 mil espectadores ao longo dos percursos. Era mais uma grande celebração internacional da corrida, e Suzy queria deixar ali sua marca. Apesar do cansaço, cruzou a linha de chegada dos 10 quilômetros em 40 minutos e 55 segundos. Ela afirma ter sido a primeira brasileira a concluir a prova e terminou na quarta colocação de sua categoria. O resultado encerrou a sequência de competições com chave de ouro. Depois de enfrentar a falta de dinheiro, a solidão e as barreiras de comunicação, a atleta conquistense finalmente podia respirar aliviada: havia completado o desafio que a levara à Alemanha. “Eu estava muito cansada, mas consegui fazer um tempo muito bom. Quando peguei aquela medalha, agradeci a Deus. Volto para o Brasil feliz e honrada”, afirma.

Em Munique, ela também encontrou pessoas que lhe ofereceram acolhimento, comida e amizade. Foram gestos simples, mas fundamentais para quem estava longe de casa e enfrentava tantas dificuldades.

“Eu faria tudo novamente, porque tudo o que vivi foi muito gratificante. Representar o Brasil é muito gratificante. E ser reconhecida por isso é ainda mais”, afirma.

A atleta também faz questão de dividir suas conquistas com quem a ajudou a chegar tão longe, especialmente a família e as pessoas da zona rural que participaram das rifas beneficentes para arrecadar recursos. “Tenho consciência de que sozinha eu não chegaria até lá. Essa conquista não é só minha, é nossa. Todos vocês fazem parte dessa história. Sintam-se muito bem representados por mim”, agradeceu.

A gratidão se mistura à fé, que esteve presente em cada etapa da jornada. Suzy acredita que os encontros inesperados, as ajudas recebidas nos momentos mais difíceis e as oportunidades que surgiram ao longo do caminho foram sinais de que não estava sozinha. “Deus me honrou. Eu sempre soube que, no final, tudo ia dar certo”, diz.

De volta ao Brasil, Suzy carrega as medalhas, os resultados e as lembranças de uma experiência que mudou a forma como enxerga os próprios limites. Mas ainda há sonhos esperando por ela. Um deles é contar sua história para todo o Brasil. O outro é conhecer Ivete Sangalo, a cantora que protagonizou, sem saber, um dos momentos mais emocionantes de sua aventura alemã.

“Eu não duvido mais de nada. Se Deus fez tudo isso comigo, daqui para a frente, o que vier é lucro. Eu já estou realizada”, declara.

Suzy Ruas cruzou quatro linhas de chegada em três cidades alemãs. Mas a vitória mais profunda talvez tenha acontecido longe dos cronômetros: quando, mesmo sozinha, cansada e sem saber como resolver o próximo problema, decidiu continuar. Porque algumas histórias não são contadas apenas pelo tempo registrado no relógio ou pela posição no pódio. São contadas pela coragem de partir, pela humildade de pedir ajuda, pela gratidão de reconhecer quem estendeu a mão e pela força de quem não abandona um sonho quando o caminho fica difícil.

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