Foto: Reprodução/Instagram/@thiago01
Dizem que o futebol brasileiro é refém de suas próprias tradições. Talvez seja verdade. Vivemos sob a eterna sombra de 1970, aquela fantástica Seleção que precisou do caos, da impetuosidade e da demissão de João Saldanha — que caiu por ter a audácia de questionar a titularidade de Pelé — para que Zagallo, o técnico que o substituiu, fizesse o óbvio que ninguém mais ousava fazer: escalar os melhores, independentemente da posição que jogavam em seus clubes.
Naquela frente de ataque, apenas Jairzinho era ponta-direita de ofício. Pelé, Tostão e Rivelino dividiam o espaço com uma inteligência e movimentação tão refinadas que a ausência de um centroavante fixo nunca foi notada. Essa dinâmica livre permitia movimentações difíceis de se conter na área, como a cabeçada monumental de Pelé na final contra a Itália que terminou em gol, e outra cabeçada genial contra a Inglaterra, defendida por Gordon Banks naquela que considero a defesa mais magnífica de todas as Copas, tanto pelo impulso absurdo do salto quanto pelo milagre do goleiro. Até a zaga foi fruto dessa genial improvisação, com o volante Wilson Piazza recuado para fazer dupla com Brito, sustentados pelo talento de Carlos Alberto, Gérson e as acrobacias do volante Clodoaldo, um malabarista com a bola nos pés, como provou na emblemática jogada contra o Uruguai. O goleiro Félix e o lateral-esquerdo Everaldo completavam o grupo de forma segura, sem alterar o brilho do conjunto montado por Zagallo.
Zagallo teve a coragem de romper com o manual clássico das posições em nome da pura qualidade técnica.
Voltando agora para a nossa atual realidade, após fracassos em série com treinadores nacionais, a CBF finalmente recorreu à Europa para trazer o multicampeão Carlo Ancelotti. A expectativa era de uma revolução tática. Antes do jogo contra o Marrocos, o próprio treinador deu indícios de que adotaria a fluidez moderna, um ataque móvel sem uma referência estática na área. Mas, para a surpresa geral, a escalação inicial nos devolveu ao conservadorismo: Igor Thiago começou entre os titulares.
Ouso dizer aqui, correndo o risco de desagradar aos milhões de “treinadores” que habitam este país, que faltou audácia ao italiano. Ancelotti, mesmo com toda a sua bagagem europeia, parece ter sentido o peso do debate público brasileiro. Escalou o centroavante fixo pelo puro medo da crítica severa, pela pressão cultural de um país que ainda exige um “camisa 9” à moda antiga. Da mesma forma, a convocação de Neymar até hoje carece de uma justificativa para não ser interpretada como pressão. Quanto a Igor Thiago, que vive excelente fase técnica e física na Inglaterra, seu papel ideal seria o de uma arma para o segundo tempo, entrando para triturar defesas adversárias já fatigadas.
A prova de que a intuição inicial de Ancelotti estava certa veio com as substituições no decorrer da partida. Quando o time se livrou do atacante fixo e ganhou mobilidade, o futebol fluiu, o Brasil jogou melhor e o volume de jogo sufocou o adversarial. A bola não mentiu.
Agora, o torneio segue e o dilema tático se impõe. Ancelotti vai insistir no modelo engessado ou terá a coragem de Zagallo para libertar o meio-campo e o ataque? A dúvida que fica para os próximos jogos é se ele apostará na mobilidade de Matheus Cunha, no preenchimento de espaço de Lucas Paquetá, ou se encontrará uma forma de alinhar os dois para resgatar a nossa essência criativa. O laboratório terminou.
A ver!
Por Gilberto Ferreira Luna