A política de Vitória da Conquista ganhou, nesta sexta-feira, um novo capítulo daqueles que parecem ter saído diretamente de uma mesa de bar — mas que, por trás da brincadeira, levantam questões bastante sérias sobre compromissos políticos, apoios eleitorais e dinheiro de campanha.
Tudo começou quando um vereador declarou publicamente, em um programa de rádio gravado em vídeo, que apoiaria determinado candidato a deputado estadual. Na ocasião, fez questão de reforçar que sua palavra “não fazia curva” e que era homem “do tempo do fio do bigode”.
A expressão, como se sabe, é antiga e significa compromisso com a palavra dada. Era uma maneira de dizer que, uma vez assumido o compromisso, não haveria recuo.
Só que houve.
Pouco tempo depois, o vereador rompeu com o candidato que havia anunciado apoiar e passou a declarar apoio a outro nome. A mudança, naturalmente, não passou despercebida no meio político. E o vídeo em que o parlamentar falava sobre o lendário fio do bigode começou a circular com força entre vereadores, lideranças e grupos políticos da cidade.
Mas havia ainda um detalhe capaz de transformar o episódio em material perfeito para o folclore político conquistense: o autor da declaração não tem barba nem bigode.
Ou seja, aparentemente, o fio era apenas metafórico. E, pelo visto, também bastante flexível.
Nasce o “Pagode do Fio do Bigode”
Como na política de Conquista nem toda crise termina em reunião — algumas terminam em churrasco —, nesta sexta-feira vereadores e lideranças ligadas tanto à oposição quanto à situação resolveram se reunir em um condomínio de luxo. E deram ao encontro um nome que dificilmente poderia ser mais apropriado:
Pagode do Fio do Bigode.
Na mesa, cerveja, churrasco e muita prosa.
E entre uma conversa e outra, o assunto inevitavelmente voltava para o episódio que já virou uma espécie de anedota dos bastidores da política local.
O blog esteve presente à festa, mas, por razões óbvias, não conseguiu registrar os figurões que participaram do encontro. Digamos apenas que havia gente suficiente para transformar o churrasco em uma pequena convenção política — embora, desta vez, sem discurso no microfone e com muito mais carne na brasa.
O fio que virou questão financeira
Por trás das risadas, entretanto, existe um assunto que merece ser tratado com seriedade.
Nos bastidores, circula a informação de que o dinheiro utilizado para bancar a confraternização teria origem em uma quantia anteriormente devolvida pelo vereador ao candidato que ele havia deixado de apoiar.
A versão comentada entre os presentes é que, após o rompimento, o parlamentar teria devolvido valores recebidos anteriormente e, posteriormente, receberia recursos para realizar sua campanha em favor do novo grupo político.
É justamente aí que a piada do “fio do bigode” deixa de ser apenas uma brincadeira. A questão passa a envolver compromissos políticos, recursos de campanha e a necessidade de transparência sobre a origem e a destinação dos valores.
Não se trata de afirmar irregularidade onde não há comprovação. Mas, em política, especialmente em período eleitoral, dinheiro tem procedência, destino e regras. E quando uma mudança de apoio vem acompanhada de movimentação financeira, o assunto naturalmente desperta a curiosidade de quem acompanha a política local.
Entre a cerveja e a política
O mais curioso é que oposição e situação, que tantas vezes travam batalhas no plenário, encontraram no fio do bigode um raro motivo de confraternização.
E, pelo menos nesta sexta-feira, ninguém parecia preocupado em saber de que lado estava cada vereador. O importante era saber quem tinha levado a carne.
E, evidentemente, quem tinha levado a história mais engraçada.
O Pagode do Fio do Bigode pode ter terminado entre risadas, copos e espetos de churrasco. Mas a história que lhe deu origem ainda está longe de terminar.
Porque, na política, palavra pode até não fazer curva. Mas apoio político, como os últimos acontecimentos demonstram, às vezes faz.
E quando há dinheiro envolvido na curva, aí o assunto deixa de ser apenas motivo de pagode e passa a ser caso para prestar atenção.